Não gosto muito de ler livros ou blogs de relatos de viagens. Gosto sim de guias: Qual a história? Qual o preço? Qual o horário? Alguma curiosidade? Isso mais alguns mapas bons e só. Relatos são armadilhas, pois trazem sensações de quem visitou o lugar, e isso eu quero que seja só meu. Não quero saber o que o outro sentiu. Quero aquele momento limpinho para eu descobrir meu sentimento no momento de estar em um novo lugar, vivenciar uma nova experiência. Ao saber de antemão a sensação de alguém, parece que temos obrigação de sentir algo específico e semelhante ao visitar o lugar indicado no livro de relatos. Assim não. Com um bom guia na mão, a liberdade das sensações será sempre só minha. E será diferente para cada um.
Minha querida prima Luisa, além de ter um super talento para cantar, tem talento e sensibilidade para escrever. No blog do DP ela fala de um cara que conheceu, que cuida carros, e que tem medo de se intoxicar com a comida e bebida que lhe dão. "Sabe como é, né moça? Sou meio desconfiado". Leia aqui.
Sei o local e o nome da livraria que vou abrir. Tenho claro como será minha empresa de traduções. Tenho trilha e figurino para as coreografias que já estão prontas, na minha cabeça. E também tenho idéias arquitetônicas para vários cantos da casa, e para várias casas, e para várias cidades, inclusive. E sei quais músicas cantaria em meu CD, e com qual banda. Tem quem diga “lá vem ela com uma nova idéia”. Minha mãe até me deu de presente um caderninho chamado “ideário” (o máximo!), pra classificar as idéias quanto à originalidade, quanto ao nível de felicidade no momento da criação e quanto aos estimulantes que eu estava tomando naquele dia. Não me importo em só ficar no plano das idéias. Com tanta coisa concreta na minha vida, o prazer está em imaginar. A idéia é ter a idéia.
A gente se conheceu na faculdade, mesmo antes de entrar na faculdade. Acho que a vontade de se envolver com o curso era tanta que as duas inventavam coisas por lá mesmo antes das aulas começarem.
Desde o início admirei a Clá. Ela sempre foi super madura, responsável, inteligente, engraçada e linda. E sempre sabia bem o que queria. Eu ainda era meio desajeitada, meio afobada, meio esquecida, meio adolescente, meio sem saber se era aquilo mesmo que eu queria. E fomos trocando experiências e confidências. E a dupla foi ficando cada vez mais próxima e cada vez mais inseparável. E foram as gentilezas e as trocas do dia-a-dia que me fizeram amar a Clá como se fosse família.
Lembro da Clá me ligando pra contar que tinha ficado com o Zeca, ou dela fazendo baliza por mim na frente da faculdade pra eu não pagar mico, ou me fazendo um chazinho às 4 da manhã quando ainda faltava muuuito pra terminar o trabalho. Muita Cássia Eller e Cat Stevens. Às vezes o chazinho se convertia em algo mais, digamos, forte. Ela desenhou pra mim, eu desenhei pra ela. Ela acompanhou minhas crises e meus amadurecimentos sentimentais, e eu acompanhei seu casamento. Ela acompanhou minhas mudanças de cidade, eu acompanhei suas mudanças de casa. E assim fomos acompanhando uma à outra, mesmo hoje, na distância. E o sentimento não se altera. O amor fica, pois família é assim. Mesmo longe é da gente, e isso não muda nunca.
Clá e eu há 9 anos, Montevideo, ainda com filme de rolo.
Atiradas em sofás, conversávamos sobre que tipo de produto venderíamos se fôssemos donos de loja. A Piná venderia CDs, a Débora teria uma loja de produtos de beleza, a Lê venderia tecidos, e eu teria uma papelaria. Desde sempre amei papelarias. Cadernos, caderninhos, blocos, canetas, clipes, etiquetas para colar não sei onde, marcadores para escrever não sei em que papel... Minha mãe conta que quando aprendi a caminhar, entrava com ela no supermercado e queria sair correndo pra sessão de papelaria (ela também ama material escolar, vai ver que me ensinou o caminho!). Agendas, estojos, arquivos, borrachas.... Estou sempre "precisando" de algo do gênero. A faculdade de arquitetura só me ajudou no vício. Réguas, esquadros, lápis aquarelável, magic colors, papel canson, manteiga, vergê... Tenho coleção de cadernos lindinhos. Mas não tenho pena de usar. Sempre fui partidária de que aprenderia muito mais se o caderno da matéria fosse legal (pode uma coisa dessas?). O João está tentando se acostumar com essa minha mania, até me disse que o ano de 2008 não tinha sido muito bom porque sua agenda era horrível. É óbvio!
Está online minha dissertação de mestrado "Paisagem em circulação : o imaginário e o patrimônio paisagístico de São Francisco do Sul em cartões-postais (1900-1930)". Quem se interessar pelo tema, ou, por curiosidade, quiser dar uma olhada nas belezas de São Chico registradas em cartões-postais no início do século XX, é só clicar aqui.
Desde que parei com o Flamenco (não por vontade própria, as aulas que eram bem pertinho aqui de casa foram para o outro canto da cidade...), tenho tentado descobrir uma aula legal de dança. Não quero dança do ventre, nem de salão. Quero um contemporâneo, um jazz... mas está difícil.
Tentativa n°1 (ao telefone): -Bom dia, vocês tem aula de contemporâneo? -Pra quem seria? (Ah! Me lembrei que mães ligam para matricular suas filhas). -Seria para mim. -Qual a sua idade? -28. -Não temos para adultos...
Tentativa n°2, também ao telefone: - Boa tarde, vi no site que vocês têm aulas de jazz... vocês teriam para idosas de 28 anos como eu? - Sim, tem uma turma de iniciante! (Pérasóumpouquinho, iniciante não dá. Tá certo que não sou nenhuma profissional, mas depois de 10 anos de dança acredito que um intermediário seria razoável).
Tentativa n°3: -Que tipo de aulas de dança, que não seja de salão, para adultos vocês têm? - Temos uma turma de jazz, terças e quintas das 15hs – 16hs. (ah tá... é que só as donas-de-casa dançam..., desculpa eu não tinha me dado conta disso).
Tentativa n°4: - Oi, vim conhecer a escola, ver se vocês têm aulas de jazz, contemporâneo, alguma coisa coreografada, sem par, entende? Queria uma alternativa à aeróbica, ou axé, ou.... - Sim! Temos uma turma sênior de jazz! - Senior? - Sim, após 19 anos.... (méudéusdocéu) - Posso assitir, ver como é? - É naquela sala ali. “And I...... Will always love youuuuuuu (imitar Whitney Houston)” - Obrigada pelas informações moça, passo aqui outra hora.
Mas será possível??? Resolvi arrastar minha mesa da sala, e dançar sozinha. Considerando minha idade avançada, acho melhor tomar cuidado com as imperfeições no chão, as quinas dos móveis e as piruetas muito arriscadas.
"As lágrimas vieram depois de muito riso. O riso do encontro. Uma despedida em tons maiores acontece da seguinte forma: pessoas que se amam muito sentam-se umas ao lado das outras e formam um círculo. Em sofás, cadeiras e banquinhos, elas contornam uma mesa com comidas e bebidas. Isso é só pretexto, porque o que importa mesmo é o círculo. Com o passar do tempo, aquilo vai se tornando uma coisa só, quente e macia como um abraço. O abraço é do tamanho da sala e uma energia que faz cosquinha vai envolvendo todo mundo, até que se percebe que os olhares são todos ternos, concentrados e cuidadosos. Um guarda o outro. Um ama o outro. As lágrimas da despedida só antecedem outras, que são as da chegada. E essas virão com o riso, não depois. O que muda é a ordem e o sentimento vem na contramão."
Texto que a Lele Bauer escreveu ha 3 meses, intitulado "Despedida em tons maiores". Amanha partiremos em busca do riso da chegada.
Fim de tarde. Saio de casa para uma caminhada comigo mesma. Fones de ouvido. Paro para ver o pôr-de-sol que ilumina a Ponte Vecchio. “Tra le nuvole e i sassi passano i sogni di tutti, passa il sole ogni giorno senza mai tardare. Dove sarò domani? “ * O último fiozinho de sol se põe e eu sigo minha passeggiata, observando tudo com olhos atentos... medo de esquecer um dia o que eu estou vendo hoje. Fecho os olhos e sinto a sensação... medo de esquecer um dia o que sinto agora. Dobro em uma esquina. Desligo o rádio. Vejo uma orquestra dentro de uma igreja. Vou até lá. Festival de Orchestre Giovanili (gratuito) na Chiesa di S. Stefano. Muita sorte. Sento, assisto. Martinu, Janacek, Dvorak. Saio ainda com o som dos violinos nos ouvidos. Caminho tentando me perder entre as ruas. Olho pra cima e encontro o Palazzo Vecchio. Ouço um violão e uma voz. Sento para escutar. E sentir. “And the vision that was planted in my brain still remains, within the sound of silence…” **
*Domani 21/04.09. Artisti Uniti Abruzzo. ** Sounds of Silence. Simon&Garfunkel.
Por mais diferentes que possamos parecer, todos temos sempre algo em comum. Como querer aprender francês em Montpellier, por exemplo.
Fuka (Japão), Leonie (Alemanha), Ulla (Suíça), Timothy (EUA), Sophie (Holanda), eu, Carmen (Espanha), Tsuyoshi (Japão), Prof. Isabelle, e Dulce (Colombia).
É incrível como algumas sociedades podem avançar rapidamente em alguns aspectos, e em outros serem tão impressionantemente atrasadas… Conhecemos um menino de Togo no alojamento. Super tímido. Toda vez que o cumprimentávamos mantinha sua cabeça baixa e nos dava um « ciao » baixinho. Um dia fui preparar nossa janta e o encontrei sozinho na cozinha. Puxei algum assunto, e depois de alguns minutos ele me perguntou se no Brasil existiam pessoas negras. Eu disse que sim. Ele então comentou que seria por isso que converávamos com ele tão normalmente… Como assim ?? Como « normalmente » ?? Ele então me contou algumas histórias do preconceito violento que sofre na Itália. Fiquei com raiva. Fiquei com raiva do meu italiano não ser suficientemente bom para expressar a minha indignação naquele momento. Depois de muita conversa, fui com o coração apertado pro quarto. Ao contar pro João desabo a chorar. O preconceito, velado nas pequenas atitudes do dia-a-dia, é uma das maiores crueldades que alguém pode sofrer. Passado um mês, estou em Montpellier. Vou para minha aula de francês. Turma internacional. Entre os jovens japoneses, holandeses e alemães apresenta-se uma senhora, provavelmente com mais de 65 anos, branquinha, curvadinha, espanhola, freira. Carmem quer aprender francês para ser missioneia em países africanos. Quando pergunto quanto tempo ficará ela me diz : « Até quando a minha saúde permitir, hija. Temos muitas dívidas a pagar ». E assim meu coração bate forte. Lembro do Fabian. Lembro da minha vontade de arrancar o peso do preconceito que recai sobre os ombros daquele menino. Lembro da sensação de frustração de não poder fazer nada sozinha, de apenas poder dar a minha amizade. E aí olho para a Carmen e penso: apesar de muitos insistirem em fazê-lo quadrado, o mundo é mesmo redondo.
Não escrevo mais sobre isso, porque o balanço ainda está está sob análise. Já vi que 3 anos ainda não são suficientes pra chegar a qualquer conclusão. Então, IPHAN ... aguarde meu retorno!
1. O sotaque italiano ferrarese é como o espanhol catalão. 2. Cachorros entram em restaurantes e supermercados. 3. Quando me dou conta, sozinha, do significado de uma palavra, bato palminhas, fico faceira, e essa palavra começa a pipocar nos meus ouvidos por todos os lados. Como eu não tinha prestado atenção nessa palavra antes? 4. As bibliotecas são muito utilizadas. E utilizáveis. 5. As pessoas saem muito de casa com seus bebês. E com suas bicicletas. 6. Velhinhos e velhinhas, aparentemente com mais de 70 anos, andam de bicicleta. E buzinam. 7. Ainda me impressiona ler na placa que "este prédio foi construído em 1032". As vezes acho que não é possível. 8. O João ainda não encontrou ninguém de Cachoeira!! Mas tem uma colega que fez francês com a mãe da Lê em Canela. Realmente o mundo tem 6 pessoas. 9. Nunca tinha conhecido ninguém de Camarões, nem de Togo, nem da Albânia. 10. As pessoas conversam com os atendentes de banco, de supermercado, de correio. Conversam mesmo. Tipo, mostram o machucado da perna e contam do aniversário do sobrinho. 11. Muitas árvores em Ferrara soltam um algodão, que vai grudando em tudo, parecendo ter nevado em plena primavera. 12. Homens usam calças laranjas e amarelas. 13. Os museus são caóticos.